Publicado por: Lula Moura | 29 Setembro 2008

O limite da aventura subaquática

Conhecendo a doença descompressiva no mergulho.

Ao contrário do que muita gente pensa, o limitador da aventura submersa no mergulho autônomo, não é apenas a autonomia do cilindro do gás respirável que o mergulhador utiliza em seus mergulhos. Muitas vezes é comum vermos mergulhares voltando para embarcação lamentando o fim de um mergulho maravilhoso,  ainda com muito gás disponível.

Nas aulas teóricas do curso de formação de mergulhadores, os alunos são  bem apresentados as leis físicas causadoras desta limitação, que para o caso específico, é a Lei de Henry, que dará a fundamentação para o entendimento completo desta limitação. Aqui porém, iremos tratar o assunto de uma forma análoga, para facilitar o entendimento geral sobre o tema.

Todos certamente já ouviram falar do conhecido e saboroso “gás” presentes nos refrigerantes. Se fecharmos os olhos e imaginarmos, vamos conseguir reproduzir fielmente o barulho de abertura de uma garrafa bem geladinha de coca cola, e vamos nos lembrar rapidamente de um monte de bolhinhas se movimentando para sair do liquido.

Para quem não sabe, aquele “gás”, no caso o CO2, foi posto na garrafa após a mesma já ter sido preenchida pelo líquido sobre uma  pressão elevada. Assim, segundo a Lei física de Henry, ele ira se solubilizar no neste líquido na proporção direta da pressão e do tempo em que ficar submetido a essa pressão.

O que quer dizer que quanto maior a pressão e  tempo, mais gás vai ser dissolvido. Quando abrimos a garrafa, o gás perde pressão “escapando ” para o meio ambiente e o processo se reverte, ou seja, o “gás” antes dissolvido no líquido, volta para forma gasosa, por isso as bolinhas. E a medida que o tempo passa, o gás vai se liberando do líquido e indo em embora, até  dizermos que a coca está sem gás.

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Durante o mergulho acontece algo bem parecido com o mergulhador. No ato de mergulhar o principal agente de mudanças além do meio líquido, é a pressão. A pressão no ambiente aquáticos aumenta uma atmosfera a cada dez metros de profundidade, assim, quando estamos a dez metros de profundidade estaremos submetido a duas atmosferas, uma da atmosfera que estamos acostumados a suportar ao nível do mar, e outra causa pelos dez metros da coluna d´agua.

O gás que normalmente usamos durante o mergulho é o ar. A mesma mistura gasosa que você está respirando neste momento. Bom, pelo menos espero que você não esteja em algum hospital precisando de oxigênio puro. Pois a “mistura” ar, respirada normamente é composta de 20,84% de oxigênio, 78,62% de nitrogênio, 0,04% de CO2 e 0,5 de vapor d’ água.

O oxigênio quando respirado é metabolizado se transformando em energia para as nossas células e eliminado na forma de CO2, o nitrogênio que tem a maior fração na mistura respirada, quase 79%, é inerte, ou seja, não participa do processo. A grosso modo entra e sai. Porém quando mergulhamos ficamos submetidos a pressões ambiente acima do normal, o nitrogênio, por se tratar de uma gás e em respeito a lei de Henry, vai se solubilizar no meio do líquido que encontrar, que para nós humanos, é o sangue, que por sua vez penetra em todas as partes do corpo através da circulação sanguínea.

Assim, à medida que nos aprofundamos, aumentamos a pressão, e a medida que o tempo passa, mais nitrogênio dissolvido teremos em nosso corpo. Ao iniciamos a volta à superfície, a pressão vai diminuindo e o processo se revertendo, o gás hora dissolvido vai voltando a forma gasosa, entra na rede venosa, vai para os pulmões, e é eliminado pela respiração.

Mas se a carga de nitrogênio dissolvido for muito alta, ou a despressurização for muito rápida, por causa de uma subida acelerada, pode ocorrer formação de bolhas nos tecidos do corpo, nas articulações, e até na rede arterial, levando estas bolhas para orgão vitais do corpo, causando a chamada doença descompressiva.

Já deve ter ficado claro a esta altura, que um mergulho deve ser sempre planejado. As definições de qual profundidade será atingida, e por quanto tempo ficaremos lá, são primordiais para se realizar um mergulho seguro. Outro ponto é que o retorno precisa ser lento, para que o gás dissolvido que retornará a forma gasosa com despressurização da volta a superfície, tenha tempo de ser eliminado pela respiração.

São poucas as pessoas fora do meio que tem conhecimento deste limitador biofísico que os humanos têm para o mergulho, dai a importãncia da atividade ter como pré requisito para sua prática, um curso de formação completo, reconhecido e balizado por órgãos internacionais, trazendo não apenas informações como essa, mas sim fundamentação completa sobre todos os possíveis problemas que um mergulhador pode vir a se submeter.

São por razões como essa, que a atividade mergulho é a mais organizada e evoluída entra todas as práticas de esporte de aventuras.

Durante o curso de formação, os alunos estudam detalhadamente os porquês, os efeitos, as ações de emergências, e principalmente profiláticas para lidar com a doença descompressiva através do estudo de tabelas de mergulho. Tabelas essas que especificam o tempo de submersão para determinadas profundidades e as ações caso algo não ocorra como o planejado, transformando o mergulho em uma atividade com índices de segurança extremamente elevados.

Apesar de esse problema ser tratado de uma forma séria, ele passa quase despercebido na vida dos mergulhadores que adotam atitudes corretas com seus planejamentos. Pois para estes, o respeito dos limites e dos riscos do esporte, passam a ser tão corriqueiro como olhar para um lado e para o outro antes de atravessarem uma rua, ou atacar um cinto de segurança antes de começarem a dirigir.

Sou mergulhador desde 1989, e nunca tive qualquer sintoma de doença descompressiva. E como eu, tenho diversos amigos, companheiros profissionais e alunos que também podem dizer o mesmo.

Em um próximo artigo estarei falando sobre os computadores de mergulho. Equipamentos que têm como principal função monitorar todo o perfil descompressivo dos mergulhadores de uma forma dinâmica, com mais informações, e obviamente com mais segurança.


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