Como os pequenos pés na terra, hora seca hora molhada pelas ondas, observava estático toda a plenitude do mar, aquele horizonte infinito coberto por um manto azul brilhoso reluzente, só me fazia perguntar : Por que é azul? Por que tanto poder e tanta paz ? O que há lá em baixo? Seria possível que tanta beleza e majestade só pudesse trazer as coisas ruins que me contavam? Não, algo lá no fundo de meu pequeno coração, não me deixava acreditar.
Somente após anos, em um daqueles inesquecíveis finais de semanas da juventude durante um passeio de barco na praia de Tamandaré, parado em uma pequena ilha de corais, foi quando recebi emprestado de um amigo uma máscara de mergulho. Ali tudo começou, quando fiz meu primeiro mergulho, vendo aquelas cores impressionantes, à sinergia latente e perfeita entre a vida existente e o meio, aquele som de freqüência perfeita, tendo o silencio como o plano de fundo, fiquei encantado. Tal qual o primeiro beijo de um adolescente apaixonado, deslumbrei!
Hipnotizado por aquelas cenas, até hoje retratadas fielmente em minha memória, tratei de buscar o meu passaporte de viagem para aquele mundo, adquiri no dia seguinte meus primeiros equipamentos de mergulho básico, e com a ansiedade de um encontro com o ser amado, passei a contar a vida em escalas de dias faltantes para os finais de semana. Estava vivendo uma paixão prematura, mas ardente, recíproca e duradoura.
A busca do mais foi inevitável, a necessidade de ficar mais, de estar mais crescia a cada momento, era químico embriagante e ao mesmo tempo revoltante, precisava sentir mais aquela emoção que mexia comigo, que me fazia bem, que me fazia ser melhor.
Fui buscar o mergulho autônomo para satisfazer a “tara” daquela paixão. Na época uma atividade reservada a poucos devido aos pré-requisitos exigidos, mas fui, me superei e consegui. Lembro com pulsação acelerada pela emoção dos meus primeiros vinte minutos submersos em uma piscina, a minha vibração, a sensação agradável daquele ar seco, frio e vital entrado pela boca, do prazer emocionante de não precisar pedir permissão à superfície para continuar lá, e o descobrir que era possível.
Virei mergulhador, um descobridor, um presenteado por Deus. Aprendi a valorizar a harmonia das coisas, aprendi sentir a fragilidade do ser, aprendi a amar a natureza, comecei a entender quão poderosa era a vida, sair melhor, mais forte, mais contagiado e cada vez mais viciado, peguei a doença, a doença de viver o mar em toda sua plenitude.
Queria compartilhar com todos aquele fascínio embriagante, mas não conseguia, não tinha palavras, não conseguia reproduzir a essência. Fui buscar na fotografia submarina a chave para a solução desta frustração. Através dela consegui trazer a tona toda beleza e harmonia daquele mundo maravilhoso, onde as formas e as cores se desdobravam em puro fascínio, e que só com muito respeito, calma e extrema sinergia era possível se retratar.
A paixão aumentou, encontrei na fotografia submarina a forma de agradecer a Deus por tudo que ele havia me permitido ver desde cedo através do mergulho, mostrando aos outros e principalmente para as crianças tudo de belo que havia lá embaixo, toda beleza de sua criação.
Mas o destino me reservava mais, fatos aconteceram que me levaram a não ser apenas um mergulhador aficionado pelo mar como tantos, sem que nada fosse programado, me transformei em um instrutor de mergulho, percebi logo após a formação da minha primeira turma que aquilo era minha missão, lá no fundo era aquilo que eu havia pedido, tinha em minhas mãos naquele momento, o poder de ensinar as pessoas a serem mergulhadoras, a serem especiais, a poderem ver “por dentro” toda beleza da natureza, toda beleza de um novo mundo, um mundo irmão, tão próximo de nós que passa despercebido pela maioria dos que nunca o viram, e até para aqueles que lá estiveram e não conseguiram sentir na alma, o seu poder.
Ganhei uma missão, a missão de plantar a semente da paixão nos corações das pessoas, e me entreguei a ela, tive sucessos e derrotas, mas continuei firme, ganhei em troca, amigos, carinho e muita satisfação.
Passei a ter no mar a minha fonte de energia, o meu ponto de equilíbrio, o meu canal de comunicação com Deus. Nas grandes horas difíceis de minha vida, tive no mar o meu altar de apoio, me portava frente a ele como um discípulo em esplêndida contemplação, e tal qual um náufrago de uma ilha deserta olhando para o horizonte em busca da salvação, ficava num silencioso suplício em busca de solução. Soluções estas que mesmo que demoradas, pois estavam ao dispor das forças das ondas, sempre chegavam.
Vivo neste momento uma relação de muita integração com o mergulho, por isto apesar do texto acima ter sido feito exclusivamente para o cumprimento de uma promessa, a uma pessoa especial que queria ler os relatos de meus mergulho, resolvi publica-lo para conhecimento de todos na intenção de fazer reviver a emoção de mergulhar para aqueles que já tiveram a oportunidade de experimentar esse maravilhoso esporte, e de apresentar toda emoção que o mergulho é capaz de trazer para aqueles que ainda não sentiram na alma a magia de ver toda beleza da natureza submersa, que só pelo mergulho, se é capaz de senti-la em toda sua plenitude.
Um abraço de aventureiro.
| Lula Moura Instrutor de mergulho, praticante de trekking e mountain bike. Trabalha com suporte pós venda de produtos de linha branca e refrigeração comercial. Faça contato com Autor |
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